Imagine que você pudesse ver a sua vida no futuro: como ela seria daqui a 20 anos, por exemplo.
Então você descobre que o futuro que você sempre idealizou pra você é verdadeiro: você descobre que aquilo que está “escrito” pra você é tudo isso que você sempre quis. Só que tem uma coisa…
Você poderia parar essa visão de futuro, se largar no sofá e sorrir… Pensar que finalmente a vida está ganha, tudo o que você sempre sonhou será seu, incondicionalmente – está no seu destino, afinal. Mas você então recebe um recado desagradável: o seu futuro ainda não é fato consumado, e é resultado de uma sucessão de eventos pelos quais você tem que trabalhar. Se você fizer alguma coisa que não está nos conformes, de acordo com o que você quer, digamos assim, o seu destino pode mudar – para fins de filosofia, suponhamos que exista algum livre arbítrio nessa história… Pra não encher o saco, todas as histórias de destino têm esse negócio de livre arbítrio, inclusive a mitologia judaico-cristã.
Ou seja, esse é o seu destino; mas ainda assim você tem que se policiar pra não fazer nada de errado, caso contrário você perde o seu futuro.
O que podemos entender dessa história? É o que acontece nos dias de hoje? Digamos que, numa forma mais natural da humanidade, somos muito assim – temos os nossos idealismos, nossos sonhos, e corremos atrás deles.
Mas qual é a diferença entre essa coisa natural e esta “historinha”? A diferença é que quando a pessoa da história teve a chance de vislumbrar o fim de uma linha de ação e reação de sua vida, ou seja, soube até onde leva um longo caminho que ele quer trilhar, ele descobriu que ele tem mais do que chance de sucesso – se ele fizer tudo corretamente, ele não apenas tem chance de sucesso como de fato, com certeza, será bem-sucedido.
Esse tipo de responsabilidade é colocada para nós (ou pelo menos para aqueles que convivem no meio de negócios, por exemplo) sob o formato de que o nosso poder de competência consegue transcender a sorte, o azar, as decisões dos outros e as conseqüências na vida dos outros, etc – ou seja, se fizermos tudo certo, temos o futuro nas nossas mãos.
Existencialismo ateu levado ao extremo? Não sei, acho que agora viajei… Mas, o que importa é que com isso temos a impressão de que o nosso futuro está demais em nossas mãos. Muito mais do que isso; temos a impressão de que ele é real, e está mesmo na palma de nossas mãos e que, se não cuidarmos, ele escorrega, cai, se deteriora – é necessário muito esforço para se atingir a meta. Esse esforço é natural; mas no mundo atual o sucesso é uma cobrança pessoal. Cobramos a nós mesmos a vitória, o sucesso, e sacrificamos o nosso presente em função do nosso futuro.
A pessoa, ao correr atrás desse futuro, sacrifica o seu presente, o seu momento, em função desse seu “sonho”. As implicações disso são enormemente tristes… Nós podemos escolher aquilo que queremos ser, mas por sobre toda a sociedade existe um clima de dever. Essa competitividade que se elevou a níveis não-saudáveis na sociedade moderna faz com que nós nos sintamos obrigados a vencer, obrigados a sermos aquilo que escolhemos ser, obrigados a alcançar esse futuro que tanto queremos, caso contrário seremos fracassados, derrotados, miseráveis – essa é uma cobrança que quase ninguém faz no dia-a-dia, porque não é necessário. Os principais algozes, os principais juízes que cobram essas sentenças somos nós mesmos.
Nós podemos escolher o que queremos para o futuro, mas imediatamente nos é colocada a responsabilidade de vencer ou morrer tentando. Sob a pressão do futuro, sob a pressão da irrealidade, dessa ficção, tendemos a fazer escolhas que favorecem o futuro, que nos fazem perder momentos preciosos – por mais simples e por menos edificantes que sejam.
Isso já é ruim quando a nossa responsabilidade é lutar pra que o destino se cumpra. Agora, o que dizer daqueles que precisam lutar para que o destino não se cumpra? Aqueles que estão fadados ao fracasso, ao insucesso, como eles se sentem vendo que os futuros mágicos que estão à venda por aí… Esses eles não podem comprar?
Temos o homem e o que lhe falta. É apenas aprender a olhar o que de fato falta que a seminovosofia do polipensar ensina. Pelo menos é como eu a entendo por enquanto. Até que isso mude, o que não é muito difícil.
Mas, pra esse caso específico, acho difícil sim…




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