O paradoxo do mal, por Epicuro:

“Quer ele [Deus] impedir o mal, mas não pode? Então é impotente. Pode, mas não quer? Então é malévolo. Não quer nem pode? Por que adorá-lo? Será que pode e quer? Então não pode existir mal”.

Apesar de muitas pessoas na internet argumentarem respostas, o problema continua insolúvel. Tomando como base os artigos de João Vasco do blog Diário Ateísta, pretendo mostrar como ele continua irrefutável.

Em primeiro lugar, é preciso definir o Deus que está sendo debatido. Pode existir um número considerável de divindades que são tidas como benévolas e onipotentes, e, portanto falaremos apenas destas, pois possuem as duas características inconciliáveis no paradoxo de Epicuro. E se são onipotentes, não se pode conceber uma divindade que possa tudo, exceto prever o futuro e conhecer o passado – ou seja, uma divindade toda poderosa também deve ser onisciente.

O mais frutífero contra-argumento é o de que Deus nos dá o livre arbítrio, e que muitas vezes usamos nossa liberdade para o mal. Deus não impede isso porque respeita nossa liberdade.

Entretanto, essa contra-argumentação encara uma difícil premissa: não é possível a um Deus respeitar a liberdade humana E evitar o mal. Ou seja, não existe um mundo livre que possa ser conciliado com um mundo onde o mal não exista. Se um Deus não pode criar um mundo de tal forma, ou ele é impotente, ou é malévolo (consegue, mas não quer), ou o mal está contido intrinsecamente na natureza da liberdade. Apesar dessa opinião claramente negativa sobre a liberdade, esse fato não anula a contra-argumentação, apenas o faz para as pessoas que insistem em dizer que, na religião, a liberdade não é a fonte do mal – para estas, este raciocínio basta.

Atacando a contra-argumentação por outro lado, é fundamental lembrar os defensores da religião dos males que não são causados pelo livre-arbítrio. Ou alguém provoca tsunamis e terremotos conscientemente?

Quanto a isso, muitos respondem com a idéia de castigo. Mas vamos aos poucos: quando morrem milhares de pessoas em Tsunamis, todas elas merecem morrer? Além disso, e os casos em que bebês morrem por doenças genéticas ou congênitas, eles escolheram de alguma forma morrer? Que atitude eles tomaram para merecer morrer, chutaram a barriga da mãe com muita força? E se Deus apenas “tem um plano para eles”, qual é o livre arbítrio que eles têm em aceitar ou não? Aliás, qual é a liberdade de escolha dada àqueles que morrem nos Tsunamis?

Quanto ao bebê que morre dois ou três dias depois de nascer, sem liberdade alguma? Ele sofreu; foi causado um mal a ele, e sua liberdade não foi respeitada. Temos uma situação onde não há liberdade e ainda assim há mal – ou seja, a ausência de liberdade foi um mal. Ou seja, tanto a liberdade quanto a falta dela resultou em um mal.

Se Deus fosse benevolente, criaria um mundo em que existiria uma boa proporção entre liberdade e controle divino, para que o mal, oriundo da liberdade, não superasse o mal oriundo da falta de liberdade. Por que ele não o criou de tal modo? Se Deus fosse onipotente e benévolo, ele teria criado o melhor mundo concebível, mas claramente não o fez.

Para as próximas considerações, usarei um exemplo de João Vasco. Imaginemos um pai que tem dois filhos de 6 anos, Joel e Augusto. Ele diz o seguinte: “brinquem à vontade no quarto, eu não vou intervir. Apenas não se comportem mal”.

Vamos imaginar agora que Joel quebre algo muito caro. O pai dos meninos sai rapidamente de onde está pra ver o que aconteceu e logo encontra Joel apontando para Augusto, e Augusto apontando pra Joel. Ele não tem como saber quem foi. Então ou ele não pune ninguém, o que não é justo, ou ele pune os dois, o que é igualmente injusto, pois alguém vai pagar por um crime que não cometeu.

Não vou questionar aos leitores o que é mais injusto nas duas últimas possibilidades, mas vou apenas lembrar que, caso houvesse chance segura de saber quem foi (o que logicamente ocorre com um Deus onipotente / onisciente), não seria justo que um deles pagasse pelo mal que outro cometeu, certo? Por isso, é obviamente muito injusto que aquele bebê, lembra? Aquele que morre dois dias depois de nascer? Então, é obviamente muito injusto que ele pague pelo mal que o pai dele cometeu, ou a mãe ou qualquer outra pessoa ligada ou não a ele. Da mesma forma, será que todas as pessoas, incluindo bebês, crianças e tudo o mais, elas mereciam o castigo divino, eram todos maus e mereciam morrer? Ou pior, eram alguns maus, mas todos morreram? Ou muito pior, Deus quis que morressem e eles não tiveram a menor chance de escolha?

Numa segunda situação, vamos supor que Augusto pegue uma faca e vá matar Joel. Se o pai dos dois vê a cena (o que um ser onipotente / onisciente obviamente faz) ele deveria interromper a brincadeira dos dois à força antes que Joel se machuque, não é? Qual a sua opinião se um pai, nessa situação, dissesse: “Eu não parei os dois porque prometi que não ia me intrometer na brincadeira”. E então?

Poder-se-ia dizer que esse exemplo, por algumas razões quaisquer envolvendo a idade dos dois, não serve. Tudo bem, não tem problema. Você passa na rua e vê dois desconhecidos. Um está prestes a matar o outro. Se você puder (Deus, em tese, pode) impedir que um não mate o outro sem se arriscar (em tese, isso Deus também pode), você faria isso, não faria?

Mas você poderia não fazer isso, com a seguinte explicação: “Se eu fizesse isso, estaria interferindo na esfera de liberdade daquele grupo. Estaria impedindo o provável assassino de agir de acordo com o que ele livremente escolheu, estaria negando-lhe o livre arbítrio. Aquele grupo de duas pessoas seria o menos livre, e eu valorizo mais a liberdade do que a vida”.

Essa frase teria mais apoio se o segundo homem, o ameaçado, também quisesse morrer, não acha? O problema é que nesta situação (e creio eu em muitas e muitas outras similares) temos um conflito de interesses, pois o ameaçado em questão não quer morrer.

Se você interferisse na situação, estaria tirando a liberdade de um, mas devolvendo-a a outro. Além disso, estaria preservando a vida de outro. Um saldo positivo, não? Interferir nessa situação não necessariamente feriria a liberdade de uma maneira geral. Só o faria com um indivíduo, mas faria o contrário com outro, e a não ser que algum religioso argumente que o assassino seja o preferido de Deus, acho que o allmighty não se incomodaria em dar uma mãozinha, ao mesmo tempo em que preserva a liberdade geral.

Ou seja, Deus, quando não impede que esse tipo de assassinato aconteça, ele no mínimo mata por omissão. O único modo de contra-argumentar a isso será dizer que se Deus impedisse todas essas mortes e violações aos direitos humanos (que ocorrem aos milhões por aí) o mundo pioraria. Mas, sinceramente, você acha mesmo isso? Será impossível interromper essas mortes sem fazer com que o mundo piore? Creio que ninguém que pare pra pensar responderá afirmativamente a essa pergunta. Ou será que não?

Vamos para a próxima situação: um bebê de oito meses quer encostar o dedo num fio elétrico desencapado. Quando o pai vê o filho na tentativa de fazê-lo, o que ele faz? Ele impede o filho de fazê-lo? Ou deixa que o faça, respeitando a liberdade dele?

Podemos supor que todo o pai motive-se a impedir o filho pelo fato de que ele não tem consciência do perigo que corre, ou seja, não sabe o que é melhor pra ele. De forma semelhante, se um louco quer cortar as próprias pernas por um motivo qualquer seu, seria razoável impedi-lo, já que ele não tem consciência do perigo que corre, ou seja, não sabe o que é melhor pra ele.

Da mesma forma, chegamos ao Inferno: o tormento eterno. Quem comete o mal, vai pra lá. Em primeiro lugar, vamos atentar para as condições sobre as quais o livre arbítrio está fundamentado… Você pode ser bom, e ir por céu, ou ser mal, e ir pro inferno. Alguns chamam isso de escolha. Eu, particularmente, gosto da palavra coerção, mas existem outras muito bonitas também.

Afinal de contas, um assaltante também te dá duas escolhas quando encosta uma arma na sua cabeça: ou você obedece, ou você morre. Bom esse livre arbítrio, não?

Em segundo lugar, se o Inferno fosse mesmo um lugar de eterno sofrimento e punição, quem o escolheria em são consciência? Essa decisão só pode ser feita por alguém que desconhece o Inferno, afinal de contas, quem decidiria por ele? Ou melhor, quem trocaria a eternidade por apenas uns 80 anos?

Se Deus fosse bom e onipotente, a decisão de alguém de ir para o Inferno seria tão consciente quanto à do bebê que quer tocar o fio elétrico. Nós não temos noção alguma das conseqüências de nossos atos, apenas uma pálida idéia que nem se aproxima da suposta “realidade”. A atitude de Deus é tão injustificável quanto a atitude do pai que deixa o filho morrer eletrocutado, com a visível diferença de que morrer eletrocutado é diferente do que sofrer eternamente.

Temos também uma última explicação que deixa claro que um Deus onipotente e onisciente é invariavelmente responsável por todo o mal que existe. Por exemplo: Deus cria uma pessoa que, no futuro, cometerá um assassinato. Ele sabe, portanto, que a pessoa que ele criará se tornará uma assassina. Como ele sabe, e como sabemos que isso não pode mudar? Deus é onisciente, e cria uma pessoa livre. Mesmo que ela seja livre pra fazer suas escolhas, Deus sabe que essa pessoa usará a liberdade dela pra matar alguém. Essa situação não pode variar porque se acontecer algo que Deus não sabia que ia acontecer, ele não é onisciente, nem onipotente e etc, etc, etc.

De forma semelhante, se o Diabo simboliza o mal, Deus é responsável por sua existência, afinal Deus sabia, ao criar Lúcifer, que ele depois se tornaria o Diabo. Portanto, um ser onipotente que criou tudo, obviamente também criou o mal, e por isso é responsável por ele. Não há exceção; se o mal existe Deus tem que tê-lo criado porque ele criou tudo. Se o homem criou o mal com sua liberdade, Deus já sabia disso e ainda assim permitiu que o homem o fizesse. E se permitiu que ele o fizesse, é mal, ou no mínimo omisso, considerando que ele sabia que o homem criaria o mal, mas o homem não sabia. Além disso, ainda ameaça o homem através de uma conseqüência com a qual o homem não tem contato, não tem ciência; logo, não pode decidir conscientemente e é punido sem merecimento.

Quanto à responsabilidade do mal por parte de Deus, há quem diga que culpar Deus pela existência do mal é tão fugidio como culpar um pai pelos erros do filho. Entretanto, um pai que tenha poder para impedir que o filho cometa o mal, sabendo de antemão que ele o faria, não impediria o filho – ele simplesmente não faria o filho. Não é mesmo? Isso, é claro, desconsiderando outras circunstâncias tipicamente humanas, que nada tem a ver com a suposta realidade absoluta de Deus, que não tem que se preocupar com mais nada.

Há ainda também aqueles que se perguntam o que é o mal: isso é claramente subjetivo. Sob diversas escalas axiológicas podemos definir algumas coisas como boas e outras como más. Entretanto, podemos aprender com isso que enquanto houver algum valor a ser considerado – e sempre há, seja ele qual for – há algo que é considerado bom, e algo que é considerado mau. Ponto. As duas coisas existem teoricamente, e eventualmente vão ocorrer. Ponto.

Se Deus quer impedir o mal e não consegue, então não é onipotente. Se Deus consegue e não quer, é mau. Se Deus consegue e quer, por que não faz? Se Deus não consegue e não quer, por que o chamamos de Deus?

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